terça-feira, 31 de maio de 2016

Pq sim a viagem e pq sim o viajante


A viagem e o viajante



Sereno e calmo, mas alegre e entusiasta, é assim o viajante que do nada faz tudo e que da normalidade faz o extraordinário. A cada momento, em cada lugar, a cada contacto, nos bons dias e boas noites, na contemplação e no pensamento, tudo acontece sem nada ser preciso para alem da existência.

Na viagem os olhos aprendem a espiar sem vigiar, acostumam-se a reparar sem ser necessário chamar, enchem-se de curiosidade, deixam de estar fixos no conhecido e miram o horizonte com o mesmo foco que espreitam o canteiro ou a parede caiada.

O mundo pequeno torna-se grande, porque o mundo só o é ao ser habitado por pessoas, caso contrario seria apenas mais um planeta, e com elas ele torna-se infinito, porque cada um é diferente de todos os outros e porque mesmo cada um é diferente a cada dia, tornando assim o mundo num conjunto infinito de combinações. Se a isto juntarmos a envolvente fisica e o espaço temporal, então teremos a perfeição, o nirvana, o ideal, o infinito que por definição não tem fim!

Para o viajante aquele lugar aquele momento são como uma ilha no meio do abismo, onde mais nada se ve mais nada interessa. É um ponto de passagem com direito a paragem eterna, e mesmo assim o viajante continua a sua caminhada, sem direção nem destino que não seja viver e conhecer. Esse abismo sera o destino do próximo passo, e quando isso acontecer, nova terra nascera e o viajante caminhara sobre novas ilhas deixando para tras abismos já explorados e conhecidos que longe do olhar ficam perto da memoria e dentro do espirito.

Enquanto olha o ceu busca a terra bem firme e real debaixo dos pes, sempre na procura constante da normal realidade quotidiana de cada lugar e de cada povo que aos olhos do viajante, a normalidade se torna extraordinária e um simples dia um conjunto de experiencias. Mais um dia e meia dúzia de açoes repetidas diariamente para qualquer pessoa são para o viajante infinitos momentos de contemplação e inumeras alegrias na memoria, alegria que sera refletida infinitamente pelo espirito para toda a sua vida, porque se entranhou no seu ser e ele não poderá mais desligar-se daquele momento vivido, daquela pessoa conhecida ou daquele sentimento sentido. Fara para sempre parte do ser viajante.

E quando a viagem termina, ela nunca acaba. Ouve-se la ao fundo, mas nítido como se fosse aqui e agora, na nossa realidade terrena Saramago do cimo do seu genio: “A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memoria, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: "não há mais que ver!", sabia que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de sitio, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já."

Sem comentários:

Enviar um comentário