Como produz sentimentos tão sentidos, mais do que qualquer
outra visão, um conjunto de homens, porque as mulheres cumprem os seus
primeiros passos, a lutar de forma guerreira, nem sempre, por introduzirem a pellota ou balon num paralelepípedo?
Ser chamado desporto do povo não é a explicação mas talvez
seja a razão. Não explica a explosão que cria dentro de cada amante dos 90 rápidos
minutos, mas demonstra que é universal, que é acessível, que todos tem direito
a ele e que ninguém deverá ser seu dono.
No futebol, o desporto do povo, que controversamente é também
chamado de rei, e o rei sabem bem os povos, que é regido por outras leis que os
próprios povos lhes foram permitindo. No futebol não existem classes, nem donos,
nem amos… existem amantes. Este é o futebol do mundo, do golo, do grito e das
lagrimas. É o futebol em que todos tem opinião e ninguém razão. Cada um
chamando a um conjunto de homens a sua equipa, porque a sentem verdadeiramente
sua, quando na verdade é o seu espirito que pertence, esse sim, aos guerreiros. Os
sentimentos de 90 minutos estão nas mãos e principalmente nos pés desses deuses
que por vezes parecem ter ajuda divina para fazerem milagres que o comum dos
terrestres não conseguirá. A anatomia perde a logica e razão colocando milhares
de corações nos pés de 22 seres que ali não parecem humanos, ora sendo deuses
ora diabos.
A incapacidade da maioria dos mortais, aqueles que compõem o
povo, sendo o povo todos os que acabarão por descansar juntos, na terra que também
os alimenta, como descansa o peão e o rei na mesma caixa após um jogo de xadrez,
essa incapacidade identifica o inicio da arte … separa o milagre do palpável… diferencia
o inalcançável do visível. A arte nasceu apenas com alguns… a arte diferencia
os homens, diferencia o trabalho (esse bem que nos iguala enquanto detentores e
proprietários) do artístico. Este apenas está entregue a alguns.
Quando é percebida essa incapacidade passamos para um novo
estado, o estado da arte… no futebol acontece e desprende da garganta um som de
espanto ou de alegria… desperta os sentimentos puros e ansiosos por se espalharem
por todo o corpo, visto que vivem presos em si ,em quase todas as ocasiões. Na maioria
das vezes porque a sociedade os comprime como as margens comprimem o rio, nas
outras vezes porque envergonhados preferem refugiarem-se no seu canto e não partilhar
com o mundo a sua existência… assim sentem-se únicos. E talvez o façam só porque
sim… sim porque o mundo não tem que ter explicação para tudo… se assim fosse não
havia arte nem milagres… e sempre que algo deixa de ser arte ou um milagre é
explicado, outras formas serão criadas e outros impossiveis existirão para alegria
e entretenimento do povo. Esse povo que vê na arte da bola a capacidade de
expor os sentimentos e de lhes permitir passear em volta e à volta de si
mesmos, revisitando e voltando uma e outra vez à alegria, mas também à
tristeza.
Talvez essa liberdade sentimental, essa arte sempre recriada…
talvez o aspeto guerreiro aliado ao artístico… talvez o aspeto tribal de reconhecimento
de uma pertença… talvez tudo e nada… talvez só a irracionalidade de ser de um
clube porque sim… e de clube nunca se muda, porque se jura para a vida fidelidade
a algo que nunca nos irá questionar qualquer traição… talvez só essa
simplicidade que é tudo e na verdade nada… Talvez isso seja a resposta à questão
que já nem sentido faz ser revisitada porque foi o inicio de uma viagem que não
tendo terminado tem aqui um descanso.
Mas e o futebol? Perguntamo-nos. O futebol é do povo e para
o povo… e o povo é soberano…
Viva o futebol!! So pq sim!!