A viagem e o viajante
Sereno e calmo, mas alegre e entusiasta, é assim
o viajante que do nada faz tudo e que da normalidade faz o extraordinário. A cada
momento, em cada lugar, a cada contacto, nos bons dias e boas noites, na
contemplação e no pensamento, tudo acontece sem nada ser preciso para alem da existência.
Na viagem os olhos aprendem a espiar sem vigiar,
acostumam-se a reparar sem ser necessário chamar, enchem-se de curiosidade,
deixam de estar fixos no conhecido e miram o horizonte com o mesmo foco que
espreitam o canteiro ou a parede caiada.
O mundo pequeno torna-se grande, porque o mundo
só o é ao ser habitado por pessoas, caso contrario seria apenas mais um
planeta, e com elas ele torna-se infinito, porque cada um é diferente de todos
os outros e porque mesmo cada um é diferente a cada dia, tornando assim o mundo
num conjunto infinito de combinações. Se a isto juntarmos a envolvente fisica e
o espaço temporal, então teremos a perfeição, o nirvana, o ideal, o infinito
que por definição não tem fim!
Para o viajante aquele lugar aquele momento são
como uma ilha no meio do abismo, onde mais nada se ve mais nada interessa. É um
ponto de passagem com direito a paragem eterna, e mesmo assim o viajante
continua a sua caminhada, sem direção nem destino que não seja viver e conhecer.
Esse abismo sera o destino do próximo passo, e quando isso acontecer, nova
terra nascera e o viajante caminhara sobre novas ilhas deixando para tras abismos
já explorados e conhecidos que longe do olhar ficam perto da memoria e dentro
do espirito.
Enquanto olha o ceu busca a terra bem firme e
real debaixo dos pes, sempre na procura constante da normal realidade
quotidiana de cada lugar e de cada povo que aos olhos do viajante, a normalidade
se torna extraordinária e um simples dia um conjunto de experiencias. Mais um
dia e meia dúzia de açoes repetidas diariamente para qualquer pessoa são para o
viajante infinitos momentos de contemplação e inumeras alegrias na memoria,
alegria que sera refletida infinitamente pelo espirito para toda a sua vida, porque
se entranhou no seu ser e ele não poderá mais desligar-se daquele momento
vivido, daquela pessoa conhecida ou daquele sentimento sentido. Fara para
sempre parte do ser viajante.
E quando a viagem termina, ela nunca acaba. Ouve-se
la ao fundo, mas nítido como se fosse aqui e agora, na nossa realidade terrena
Saramago do cimo do seu genio: “A viagem não acaba nunca. Só os viajantes
acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memoria, em lembrança, em
narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: "não há
mais que ver!", sabia que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o
começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu
já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite,
com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto
maduro, a pedra que mudou de sitio, a sombra que aqui não estava. É preciso
voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar novos ao lado
deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já."